Desde bem cedo ouvi dizer que, quando se está no fundo de um poço, dá para ver as estrelas, mesmo à luz do dia. Aristóteles falou disso, assim como Charles Dickens. Em muitas noites escuras, a imagem daquele trecho arredondado do céu repleto de estrelas me proporcionou conforto. Só que há um problema: isso não é verdade. A civilização ocidental não se mostrou muito disposta a descartar essa imagem folclórica.

Os astrônomos acreditaram nela por séculos, até que alguns deles resolveram verificar – bastou uma observação para que ruíssem as ilusões. Do mesmo modo, nossa civilização reluta em se desfazer de outro mito: o da infinita generosidade do planeta Terra. Recusando a ver os claros indícios em contrário, continuamos acreditando nisso. Bombeamos a água dos aquíferos e desviamos o curso dos rios, confiando em duas estrelas-guia: a irrestrita expansão humana e o suprimento infinito de água. Agora os lençóis freáticos estão se esgotando em países que abrigam metade da população mundial. É como se todos nós tivéssemos estourado, de maneira espetacular, nossas contas bancárias.

Em 1968, o ecologista Garrett Hardin publicou um ensaio com o título The Tragedy of the Commons (“A Tragédia dos Recursos Comuns”), que desde então virou leitura obrigatória para os estudantes de biologia. Ele trata dos problemas que somente podem ser resolvidos por meio de “uma mudança nos valores humanos ou nas ideias de moralidade”, naquelas situações em que a busca racional do interesse individual conduz à ruína coletiva. Criadores de gado que dividem pastagens comunitárias, por exemplo, vão progressivamente aumentando seus rebanhos até que o pasto é destruído pelo uso excessivo. Em vez disso, a aceitação de limites autoimpostos, algo no início inconcebível, passa a ser a única saída. Enquanto nossas leis supõem um critério moral fixo, Hardin sustenta que “a moralidade de um ato é função da condição do sistema no momento em que tal ato se realiza”. No passado, com certeza não era nenhum pecado abater pombos e comê-los em tortas.


A água é o mais fundamental dos recursos comuns. Os cursos d’água antes pareciam tão abundantes quanto os pombos, e a noção de preservar a água era tão ridícula quanto a de engarrafá-la. Mas as regras mudam. Incontáveis vezes os países estudaram os sistemas aquáticos e redefiniram os critérios de uso mais sensato. Agora o Equador se tornou a primeira nação do planeta a incluir os direitos da natureza em sua Constituição, de modo que rios e florestas não sejam simplesmente propriedade, mas desfrutem de um direito próprio de prosperar. Sob tal legislação, um cidadão pode abrir um processo em favor de uma bacia hidrográfica ameaçada, reconhecendo que a saúde dela é crucial para o bem comum. Outros países talvez sigam os passos do Equador. Do mesmo modo que, no passado, o sistema legal hesitou em reconhecer os direitos das mulheres e dos ex-escravos, hoje as faculdades de direito nos Estados Unidos vêm reformulando seus currículos visando compreender e reconhecer os direitos da natureza.

Sobre a minha mesa, um copo com água reflete a luz do entardecer, e continuo atenta às maravilhas naturais. Quem é dono dessa água? Como posso considerá-la minha se o destino dela é circular por rios e corpos vivos, tantos já passados e outros tantos no futuro? Ela é antes uma antiga e deslumbrante relíquia, esperando para retornar aos seus, esperando para mover montanhas. Ela é o padrão do meio circulante biológico, e a boa nova é que há incontáveis maneiras de preservá-la. Além disso, ao contrário do petróleo, a água sempre vai fazer parte de nossas vidas. Nossa confiança na generosidade da Terra tinha em parte razão de ser, uma vez que toda gota de chuva acaba no oceano, e o oceano chega ao firmamento. E em parte era infundada, porque não somos indispensáveis para a água. É bem o oposto. Nossa missão é descobrir maneiras razoáveis de sobreviver no interior dos limites dela. Faríamos bem em fixar a vista em novas estrelas-guia. O suave estímulo das evidências, a orientação da ciência e um coração empenhado em proteger os recursos comuns: esses são os instrumentos de um novo século. Contemplar com assombro um planeta repleto de água é a nossa maneira de ver o que está em jogo e de conhecer melhor o nosso lugar.

Fonte: http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-121/agua-vida-541844.shtml