Por Raquel recuero, em http://www.pontomidia.com.br/raquel/

Os colegas Marcos Palacios e Erick Felinto reacenderam uma discussão relevante: o ponto do fechamento das publicações científicas (comum no Exterior), que parece estar chegando com força ao Brasil. Gostaria de discutir aqui meus dois centavos a respeito da questão, que me incomoda profundamente.

O primeiro problema: Fechamento

Cada vez mais observamos anais de evento e revistas científicas com publicação fechada e apenas disponível para quem paga; revistas que cobram dos autores para que os artigos “selecionados” sejam publicados, congressos que exigem o pagamento antes da seleção dos trabalhos e etc. Esse fechamento, do meu ponto de vista, gera imensos prejuízos a pesquisa científica, primeiro, porque limita o acesso ao conhecimento; segundo porque reduz também a visibilidade do artigo comprometendo, muitas vezes, que outros trabalhos possam utilizar-se daquele conhecimento em produção. É claro que compreendo que existem determinados custos na publicação de artigos para editoras. Mas muitas vezes, deparamo-nos com uma indústria da publicação, sustentada pelo dinheiro que vem das agências e universidades, especialmente as públicas. Apenas para dar um exemplo: Recentemente tive um artigo resultado de dois anos de pesquisa aprovado para um congresso muito prestigioso no Exterior. Pois bem, junto com a mensagem de aprovação veio a seguinte informação: meu artigo apenas sairia nos anais (anais online, bem sabido) se eu me inscrevesse no evento, que custava a módica taxa de 700 dólares. Como eu não tinha financiamento e não quis pagar do meu bolso, tive meu artigo “retirado” do evento e substituído por outro. Ou seja, mais do que o mérito, conta para a publicação a disponibilidade de recursos financeiros.

Do meu ponto de vista, esse é um problema sério, pois empata a pesquisa e prejudica que a Ciência avance. Quantas vezes alguém não se deparou com um artigo em biblioteca fechada, o qual não tem acesso? Quantas vezes um pesquisador precisa recorrer ao portal de periódicos para acessar artigos “fechados” (que, por sinal, também tem seu acesso pago pelas universidades)? Como um pesquisador de uma universidade pequena que não tem acesso ao portal consegue os artigos?

Um segundo problema: Língua

Entretanto, o acesso não é o único problema que enfrentamos. Há uma imensa divisão entre pesquisadores iberoamericanos e saxões. Isso porque a maior parte das revistas e eventos foca, principalmente na língua inglesa. O inglês é hoje a língua da pesquisa. O grande problema é que a maior parte dos pesquisadores não nativos dificilmente consegue atingir os padrões de excelência idiomáticos exigidos pelas publicações, o que acaba empatando que pesquisas excelentes recebam a visibilidade que merecem. A tradução, mesmo quando realizada com critério (e é MUITO cara, tenham isso em mente) também empata no fato de que o tradutor não é um profundo conhecedor do assunto e problemas aparecem. Com isso, pesquisadores latinoamericanos, em especial, são bastante prejudicados e pesquisas dessas regiões dificilmente recebem atenção, gerando um foco muito forte em trabalhos americanos e europeus. A recíproca também é verdadeira, uma vez que pesquisadores de muitos países sequer conhecem uma segunda língua (no Brasil, para fazer seleção para a pós-graduação, em geral, exige-se conhecimento básico de uma segunda língua).

Criam-se assim, dois centros: um latino (espanhol/português) e um inglês, que não se comunicam entre si. E esse problema é muito mais sério nas ciências humanas e sociais, onde o argumento é essencial para o artigo e a exigência lingüística também, do que nas ciências exatas, onde os números são universais.

Possíveis soluções

Acredito que o conhecimento científico, construído pelo pesquisador deve ser público e acessível a quem se interessar. E muitos colegas, inclusive fora do Brasil, partilham dessa idéia. Há uma certa “regra branca” onde muitos disponibilizam em PDF “rascunhos” dos trabalhos publicados em seus sites ( mesmo quando isso é expressamente proibido pelas editoras pagas). Mas isso não é suficiente. A danah boyd já escreveu um texto conclamando pesquisadores a boicotarem a publicação em revistas e congressos com anais fechados. Concordo com o que ela propõe, mas acho que no Brasil, outras medidas são necessárias, por exemplo:

•Criação de políticas públicas de apoio para eventos e revistas abertas – Por exemplo, suporte das agências de pesquisa para com eventos e revistas com anais abertos – Não falo apenas em financiamento desses projetos, mas em estímulo a anais online, revistas online e bancos de dados com revistas abertas, possibilitando maior circulação do conhecimeno, mas igualmente avaliar mais positivamente as publicações nesses espaços;

•Auxílio de tradutores para trabalhos considerados de excelência – Proporcionar que projetos disponham de tradutores para auxiliar pesquisadores a revisar seus artigos e para revistas o auxílio para traduzir trabalhos selecionados para o Português;

•Exigência de que pesquisas financiadas com verba pública e de agências públicas no Brasil tenham artigos publicados de forma aberta – Essa eu roubei da danah. Acho essencial. Trabalho que foi produzido com verba pública precisa estar acessível a toda a sociedade;

•Abertura do portal de periódicos para toda a sociedade – Proporcionando que pesquisadores iniciantes e não vinculados a universidades possam também acessar artigos que não estão disponíveis a não ser por acesso pago.

E quanto aos livros?

Livros são outra questão. Primeiro porque existe um evidente custo de produção muito maior. Segundo, porque ao contrário dos artigos, em geral apresentam um conhecimento mais sedimentado e já publicado anteriormente sob a forma de artigo. É claro que o ideal seria que todos os livros existissem em bibliotecas e estivessem acessíveis sob a forma de PDF, mas isso nem sempre é possível por conta do custo. No meu caso, com o meu primeiro livro consegui o apoio da Cubo.cc que financiou uma edição em PDF que está livre para acesso na web, e o apoio da Sulina, que apostou também na edição impressa. No entanto, isso já não foi possível com o segundo livro, de metodologias. O ideal seria que conseguíssemos também uma edição para e-readers e PDF, com um custo bem inferior. Mas ainda não temos os recursos.

Enfim, creio que é uma discussão que merece destaque e por isso, manifesto o que penso aqui. Comentários são bem vindos e opiniões discordantes, também.🙂