BERGSON E O MÉTODO DA INTUIÇÃO
Claudio Cleverson de Lima
Gilles Deleuze estudou detalhadamente os conceitos de Bergson (duração, memória e impulso vital) guiados pelo método da intuição, utilizado para propor e solucionar problemas. Através deste método filosófico, Bergson buscava estabelecer precisão na filosofia, na ciência e em várias outras áreas de proposição, análise e solução de problemas, colocando a intuição como um método preciso, e não vago e nebuloso. Para ele, apesar de ser um ato simples e que designa um conhecimento imediato, a intuição implica uma pluralidade de acepções. As regras do método, para Bergson, são a criação de problemas, seguido da descoberta de diferenças de natureza e finaliza com a apreensão do tempo real.
Sobre a primeira regra, refere-se a “aplicar a prova do verdadeiro e do falso aos próprios problemas, denunciar os falsos problemas, reconciliar verdade e criação no nível dos problemas”. O autor acredita que não é somente nas soluções que se verifica o certo e errado. Para ele, nos acostumamos, desde a escola, em pegar os problemas prontos, sem muita margem de liberdade para pensar sobre estes problemas. Constituir os próprios problemas é a verdadeira liberdade, de maneira que encontrar o verdadeiro problema e colocá-lo torna-se tão ou mais importante que resolvê-los. Com uma boa colocação se resolve os problemas mais facilmente. Deleuze diz que a invenção do problema, posicionando algo que ainda não existe, é mais poderosa que a descoberta, que se refere ao que já existe. Assim, colocação e solução do problema se equiparam. “O problema tem sempre a solução que merece em função da maneira pela qual é colocado, das condições sob as quais é determinado como problema”. Para o autor, portanto, a história teórica e prática da humanidade é a história da constituição de problemas.
Como regra complementar desta regra, Bergson busca mais do que definir a verdade/falsidade de um problema pela sua possibilidade ou impossibilidade de receber uma solução. Para o autor, os falsos problemas podem ser problemas inexistentes, aqueles em que seus próprios termos são confusos entre o ‘mais’ ou ‘menos’. Há mais na ideia do não ser do que na ideia de ser. Exemplificando, há mais na ideia de desordem do que na ideia de ordem, pois na desordem já está implícita a ideia de ordem, mais a sua negação, mais o motivo psicológico particular de tal operação (quando encontramos um tipo de ordem que não é aquela que esperávamos, por exemplo). Bergson, em resumo, critica o negativo e todas as formas de negação como fonte de falsos problemas. Essa falsidade problemática surge quando, em vez de se ver que há duas ou várias ordens irredutíveis, retém-se apenas uma ideia geral da ordem, contentando-se em opô-lo à desordem e pensa-la em correlação com a ideia de desordem. Para o autor, o engano mais geral de pensamento, comum à ciência, inclusive, seja conceber tudo em termos de mais ou menos, ver apenas diferenças de grau e de intensidade onde, mais profundamente, há problemas de natureza. Sendo essa natureza de visão errônea indissipável do gênero humano, ideia de Kant compartilhada por Bergson, só resta desenvolver uma outra inteligência, a inteligência crítica, paralela, crítica essa que só a intuição pode suscitar, porque encontra as diferença de natureza sob as diferenças de grau e comunica à inteligência os critérios que permitem distinguir os verdadeiros problemas dos falsos.
Já os problemas mal colocados, agrupam coisas que se diferem por natureza. Por exemplo, na ideia de que a felicidade se reduz ao prazer, não há um problema, pois prazer e felicidades podem assumir estados muito diversos. Outro exemplo: ao medir a qualidade da sensação com o espaço muscular que lhe corresponde ou com a quantidade de causa física que a produz, se mistura impuramente determinações que diferem por natureza, resultando num problema mal colocado. Assim, para Bergson, a inteligência verdadeira é a faculdade que coloca os problemas em geral, sendo o instinto uma faculdade de encontrar soluções. Mas só a intuição decide acerca do verdadeiro e do falso nos problemas encontrados.
Na segunda regra, temos “lutar contra a ilusão, reencontrar as verdadeiras diferenças da natureza ou as articulações do real.” Apesar de aplicar-se na questão do dualismo (heterogêneo-homogêneo, instinto-inteligência, contínuo-descontínuo) esta não é a síntese da filosofia de Bergson. Trata-se, sim, de dividir um misto pelas suas articulações naturais, pela sua natureza, pois o método da intuição é um método de divisão. Bergson não ignora o fato de que as coisas se misturam, como a lembrança e a percepção, as quais misturamos e não sabemos dizer o que cabe a uma e outra. Não encontramos mais as duas presenças puras da matéria e da memória e somente vemos as diferenças de grau entre percepções-lembranças e lembranças-percepções. Perdemos a razão dos mistos, ao medir as misturas, com uma medida já impura e misturada. Só o que difere por natureza pode ser dito puro e trata-se, portanto, de dividir o misto de acordo com técnicas qualitativas e qualificadas, como a intuição.
É essa a crítica maior de Bergson, pois para ele a metafísica, na sua visão do tempo, a ciência, na visão espacial em relação com o ser e até o evolucionismo só viram diferenças de grau onde havia diferenças de natureza. O esquecimento dessas diferenças, para Bergson, incita a criação de uma grande variedade de falsos problemas que, por serem mal colocados, geram respostas defeituosas.
Como funciona então o método de Bergson? Primeiro, ele pergunta se, entre isto ou aquilo, pode (ou não pode) haver diferença de natureza. A percepção, vista assim, não é o objeto percebido mais algo, mas menos algo, menos tudo que não nos interessa sobre aquele objeto. A intuição, pra ele, nos leva a ultrapassar o estado da experiência em direção às condições da experiência. Colocar-se ‘acima da viravolta’, que é o ponto em que se descobrem as diferenças de natureza, mesmo que para isso seja necessário multiplicar os atos da intuição. Só assim será possível encontrar as verdadeiras perguntas, o motor de todo saber.