Computação, Redes sociais na web

O INSUSTENTÁVEL DESEJO DE SER CURTIDO

O INSUSTENTÁVEL DESEJO DE SER CURTIDO
Dagomir Marquezi

Você, assim como eu, deve ser um dos 845 milhões de usuários do Facebook no mundo. O Brasil é o quarto maior frequentador, com mais de 42 milhões de pessoas conectadas. Segundo o site SocialBakers, 60% dos usuários têm entre 18 e 34 anos. E as mulheres são ligeira maioria (54%). Isso significa que um em cada cinco brasileiros está ligado naquela página azul. Pode ser um usuário eventual. Mas provavelmente está viciado.
Como viciado, resolvi contabilizar as coisas que aparecem por lá. Em mil posts, contei basicamente o seguinte:
1 _ Clipes musicais / 18,7%
2 _ Animais / 10%
3 _ Clipes de notícia / 8,3%
4 _ Frases / 7,4%
5 _ Tiras, piadas e frases de humor / 5,9%
6 _ Divulgação de trabalho pessoal / 5,6%
7 _ Fotos de si mesmo ou da família / 5,5%
Não é um levantamento “científico”. Apenas um retrato. Veja como o conteúdo varia. Tem a futilidade e a objetividade, o humor e a seriedade, a divulgação do próprio trabalho, as frases úteis e inúteis, notícias e piadas.
Abaixo dessas sete primeiras colocações de categorias temos a riqueza da diversidade humana. Os que promovem causas (as contra preconceitos estão sempre em pauta). Temos os posts político-doutrinários, os trechos de filmes e programas de TV, os poemas, os status pessoais (“tô cum sono!”). As fotos de comida. O combate entre religiosos e ateus militantes. As declarações de amor e de ódio. Os relatos de festas e baladas. As provocações do futebol. E os “kkkkkkkkkkkkkkkkkk”.
Conforme o tempo passa, vemos que o Twitter se firma como um instrumento real e cada vez mais poderoso de divulgação. O LinkedIn tem seu foco profissional. E o Google+ ainda não se firmou, e talvez nunca se resolva. Mas o Facebook virou um lugar onde as pessoas se soltam no “bar virtual” e os pensamentos e sentimentos ganham passe livre.
Um usuário escreve: “Eu declaro, a quem interessar possa, que todas as noites oro fervorosamente para que Deus conceda uma morte lenta e dolorosa a todos os funcionários da empresa X, seus familiares, entes queridos e mais os cinquenta vizinhos da direita e os cinquenta vizinhos da esquerda”. Ele teria coragem de dizer isso na TV, ou pessoalmente? No Face ele tem.
A invenção de Mark Zuckerberg virou uma máquina insaciável de cultivo e retroalimentação de carência afetiva. O Facebook nos faz oferecer alguma coisa no altar da popularidade – uma foto, uma música, uma frase de consolo – e esperar ansiosamente pela contagem de usuários que curtiram, compartilharam ou cutucaram. Medimos nossa aceitação contando vogais: “Adooooorooooooo!”.
Zuckerberg está multiplicando pela humanidade sua guerra contra a rejeição, tão bem retratada no filme A Rede Social. Cumplicidade mútua é o que vale para que se ganhe a cobiçada mãozinha fazendo sinal de positivo. E essa sede de empatia cria processos estranhos.
Coloque um post com o título “Descoberta a vacina contra o câncer” e você terá meia dúzia de apoios. Escolha a foto bonitinha de uma lua no horizonte e escreva “boa noite a todos vocês meus queridos” e 1 872 curtirão isso.
O Facebook virou o maior laboratório de relacionamentos pessoais do mundo. E nós somos suas mais de 845 milhões de cobaias voluntárias.

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