Pois é.  Parece que a intolerância é lá, é acolá, mas ela está bem aqui, no meio de nós.

Foi só as pessoas começarem a colocar o avatar do facebook em bleu-blanc-rouge que começaram as ofensas, os xingamentos, a comparação Mariana-Paris, a brasilidade estúpida e intolerante que não quer Halloween mas aceita Papai Noel e Coelho da Páscoa como se estes fossem legítimos índios guaranis, mais brasileiros impossível. Os espaços pessoais  das redes sociais viraram praça de guerra entre defensores do “sou Mariana”  com aqueles que diziam “je suis Paris“. Como se uma tragédia excluísse a outra, como se as dores pudessem ser comparadas e, pior, como se as mortes fossem diferentes. Já diziam os Titãs nos anos 80 que “as tragédias são todas iguais, só as riquezas é que são diferentes”.
Não acho que eu tenha necessidade de me alongar sobre o tema, porque para mim o Gregorio Duvivier  já disse tudo para quem tem neurônios pra escutar, na sua coluna da Folha. Confira:

“É sempre a mesma coisa. Primeiro todo o mundo põe um filtro arco-íris no avatar. Depois vem uma onda de gente criticando quem trocou o avatar. Depois vem a onda criticando quem criticou. Em seguida começam a criticar quem criticou os que criticaram. Nesse momento já começaram as ofensas pessoais e já se esqueceu o porquê de ter trocado o avatar, ou trocado o nome para guarani kayowá, ou abraçado qualquer outra causa.

Toda batalha pode ser ridicularizada. Você é contra a homofobia: essa bandeira é fácil, quero ver levantar bandeira contra a transfobia. Você é contra a transfobia: estatisticamente a transfobia afeta muito pouca gente se comparada ao machismo. Você é contra o machismo: mas a mulher está muito mais incluída na sociedade do que os negros. E por aí vai. Você é de esquerda, mas não doa pros pobres? Hipócrita. Ah, você doa pros pobres? Populista. Culpado. Assistencialista.

Cintia Suzuki resumiu bem: “Você coloca um avatar coloridinho, aí não pode porque tem gente passando fome. Aí o governo faz um programa pras pessoas não passarem mais fome, e aí não pode porque é sustentar vagabundo (…). Moral da história: deixa os outros ajudarem quem bem entenderem, já que você não vai ajudar ninguém”.

Todo vegetariano diz que a parte difícil de não comer carne não é não comer carne. Chato mesmo é aguentar a reação dos carnívoros: “De onde você tira a proteína? Você tem pena de bicho? Mas de rúcula você não tem pena? E das pessoas que colhem a rúcula, você não tem pena? E dos peruanos que não podem mais comprar quinoa e estão morrendo de fome?”

O estranho é que, independentemente da sua orientação em relação à carne, não há quem não concorde que o vegetarianismo seria melhor para o mundo, seja do ponto de vista dos animais, ou do meio ambiente, ou da saúde, ou de tudo junto. O problema é exatamente esse: alguém fazendo alguma coisa lembra a gente de que a gente não está fazendo nada. Quando o vizinho separa o lixo, você se sente mal por não separar. A solução? Xingar o vizinho, esse hipócrita que separa o lixo, mas fuma cigarro. Assim é fácil, vizinho.

Quem não faz nada pra mudar o mundo está sempre muito empenhado em provar que a pessoa que faz alguma coisa está errada —melhor seria se usasse essa energia para tentar mudar, de fato, alguma coisa. Como diria minha avó: não quer ajudar, não atrapalha.


Pois é.  Que falta faz a esse povo entender a frase da biógrafa de Voltaire, Evelyn Hall:””Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”

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