Tenho visto ultimamente inúmeros adolescentes gritarem em alto e bom som a expressão acima, exaltando crime, desrespeito e rebeldia como troféus dos quais alguém pode se orgulhar. A respeito disso, gostaria de fazer algumas observações:
Vida louca, meu irmão, é o cara acordar às 6 da manhã, tomar um café sem pão (o único que resta será dividido entre os irmãos menores), ir pra escola a pé (porque o dinheiro da passagem é usado pra comprar a pouca comida que tem em casa), quase não assistir televisão, pois na casa só tem uma, na sala, que sempre é dominada pela vontade da maioria, não ter internet, nem roupa de marca e, ainda assim, ser o melhor aluno da turma e o melhor amigo que alguém pode ter.
Vida louca, “brother”, é ter todo luxo, conforto e apoio da família e aproveitar cada oportunidade que o dinheiro proporciona de viver bem, de amadurecer e se desenvolver intelectualmente, mais do que uma grande maioria nesse país.
Vida louca, meu amigo, é ter que parar de estudar aos 15 e começar a trabalhar aos 16 e, ainda assim, retornar aos estudos à noite, porque tem garra e gana de buscar um futuro melhor.
Vida louca é não ter pai, não ter mãe, não ter afeto nem referências e, ainda assim, acreditar que a vida pode ser diferente quando se quer.
Vida louca é o oposto de usar droga por modismo, desrespeitar as pessoas por falta de caráter e ser rebelde, sem nem saber o que significa rebeldia.
Vida louca, pra mim, é o cara que aproveita as oportunidades de ser melhor a cada dia, vivendo suas histórias, sendo livre (não confundido liberdade com libertinagem), independente da classe social.
Aquele que aprendeu que a melhor rebeldia que se pode ter é ser exatamente o contrário daquilo que o sistema espera de você (comodismo, apatia e conformismo).
Correr atrás dos objetivos, batalhar pela realidade, isso pra mim é Vida louca.
O resto, no meu humilde ponto de vista, tem um outro nome:
Vida Burra!

Autora: Tatiana Lackmann – professora em http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?e=5&n=41418

VIDA LOUCA II
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E eu vou acrescentar a minha própria experiência:
Vida louca, meu irmão, é ter que ir morar em casa de estranhos aos 11 anos de idade, longe da família, pais, irmãos, amigos, porque a única escola do local só atendia até a quarta série. Vida louca é escutar xingamentos, ofensas e trabalhar apenas pela comida desde essa idade e não poder reclamar, porque a reclamação significaria voltar pra roça e ficar sem poder estudar. O que, pra mim, era (e ainda é) a pior falta de perspectiva que alguém pode conceber.
Vida louca é não poder participar da festa de formatura de seus colegas de Ensino Médio, inventando uma desculpa qualquer para a ausência, mesmo sendo o orador da turma e aluno com melhor nota, por não ter dinheiro.
Vida louca, “brother”, é abandonar novamente família, amigos, pessoas queridas aos 18 anos pra vir, com uma sacola de roupas, tentar QUALQUER emprego em uma cidade grande, abrindo mão de uma Universidade, porque o dinheiro que permitiria começar uma graduação só sobraria aos 31 anos, quando estudantes universitários normalmente iniciam promissora vida profissional.
Vida louca é ficar sem grana para cursar uma única disciplina que fosse na faculdade e ir cursar curso de inglês gratuito, pra aprender o idioma sem depender de dinheiro (que não havia).
Vida louca é demorar 11 anos pra se formar, por falta de grana pra pagar as disciplinas, vendo todos seus colegas se formarem na sua frente e tendo que formar turma e amigos novos a cada semestre, já que os outros progrediam e eu ficava.
Vida louca, meu amigo, foi conseguir cursar Especialização e Mestrado ao mesmo tempo que trabalhava em DOIS empregos, para conseguir pagar as mensalidades. E, apesar de conseguir destaques nas feiras científicas institucionais durante 3 anos seguidos, com TODOS os trabalhos que inscrevi, escutar de diretores de instituto e professores promessas tão vagas quanto vento (É, palavras são vento!).
Vida louca, mesmo, está sendo assistir puxa-sacos conseguirem empregos com desempenhos medíocres e altos salários por fazerem parte da “panela” que cerca cada pessoa em situação temporária de poder.
Vida louca, amigão, é não ter conseguido nenhuma das milhares de bolsas que todo tipo de cotista consegue por não ser branco nem ter olho claro, apesar de eu não possuir um tostão no bolso e ter tanta (ou mais) necessidade que qualquer um beneficiados com bolsas, cotas, Ciência sem Fronteiras e outros quetais. Claro, sempre há os que dirão que não há mérito. Gostaria que me dissessem, então, que há mérito em ter nascido em determinada etnia, ao mesmo tempo em que pregam que os que nasceram ricos (isso, nasceram igual aos anteriores) precisam pagar “imposto sobre grandes fortunas”. Como se esse “nascer rico” fosse um mérito “menor”.
Vida louca, mesmo, vai ser batalhar um doutorado, poder olhar pra trás, pra todo o caminho percorrido e dizer com um orgulho que dinheiro nenhum compra que nunca foi necessário culpar o sistema, corromper-se, puxar saco, fazer parte de panelas ou rastejar feito verme pra conseguir nada.
Isso, sim, vai valer a frase: “Meu, que vida louca”!